quinta-feira, 14 de maio de 2009

Olhar


Olhos fixos no nada,
Sonhadores, perdidos...
De malícia despidos
Aguardando a alvorada.

Olhos de alma magoada
Em busca de prazeres esquecidos,
Expressam os gemidos
Que percorrem a madrugada...

A luz envolvente de tentação
Que arde nesse teu olhar,
É grade invisível da prisão

Que me fizeste abraçar...
Perco-me no abismo da imensidão
Que o teu vazio me faz desejar.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Muralha Invisível


Solitária, contemplas da janela os caminhos sinuosos que rasgam os prados verdejantes em direcção à tua torre.

Na penumbra do quarto, olhas em direcção à janela e avanças para ela como que hipnotizada pelos raios de luz que penetram a obscuridade.

Abres a janela de par em par, avanças hesitante, e fechas os olhos saboreando a aragem quente que te envolve em sorrisos lânguidos de crepúsculo... Qual bailado da alma que te estende a mão invisível, ansiosa pelo toque suave que se adivinha no sorriso do olhar…

Mas oh…….. A aragem acaricia-te o cabelo, e enrubescida de tamanha ousadia o teu olhar retrai-se, subsistindo apenas a essência do perfume que oscila no ar.

Chegam aos ouvidos murmúrios de palavras doces e misteriosas, mas os teus olhos não conseguem ver para além das máscaras insensíveis e de ar distante… Desiludida, envolves a tua torre em bruma e nevoeiro, embora seja difícil resistir à atracção pela luz colorida que teima em querer romper a penumbra. 

Entreabres momentaneamente as cortinas de fumo, aspirando avidamente o sabor da vida, enquanto espirais de vermelho te presenteiam com suspiros. Vacilas, ante a expectativa de voltar a sentir, de voltar a saborear, de sair da redoma em que te refugiaste.... 

Encerraste-te num mundo a preto e branco, mas sabes, o arco-íris continua à tua espera….

quinta-feira, 5 de março de 2009

Doze Anos

Doze, as badaladas
Que oiço palpitar no meu peito,
Cada compasso um beijo,
cada nota um sorriso...
 
Doze, as horas
Que aguardo o reencontro,
Que anseio pelo toque
Que se prolonga em abraço...
 
Doze, os meses
De fogo que irrompe das cinzas,
De entrega total
Ao nada que faz sentido...
 
Doze, os anos
Que a vida relembra
mas a alma celebra
E saboreia num suspiro...



terça-feira, 3 de março de 2009

Oculto



O sol ofuscante brilha no deserto. Os elementos sucedem-se em harmonia vibrante, qual tesouro expectante, ansiando por ser descoberto.

O vento sopra irrequieto, e na sua dança graciosa afasta a areia que camuflava os mistérios. Palavras esquecidas surgem, qual aparição de contornos, impressa na pedra imutável.

A água serpenteante que alimenta o oásis escolhe o seu próprio leito, e corre atraída pela assimetria voluntariosa, pelo passado sobre o qual havia sido colocado um denso véu.

Os felinos adormecidos despertaram da ilusão, e o leão faz estremecer o solo a cada passo. Todos anseiam deixar-se conduzir pelas ondas de energia hipnótica, mas o receio aniquila os passos vacilantes de quem teme errar.

Podem soprar vendavais, formarem-se tempestades, cobrir-se céu e terra de lamentos mudos, oceanos conquistarem a terra ou o fogo consumir as árvores…

Visíveis ou invisíveis, os ícones indeléveis acordarão a cada visão, fazendo despertar o fogo do dragão que cruza os céus buscando a liberdade…

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Emoções




Os teus olhos incandescentes consomem-me na escuridão. A inquietude irracional que percorre o meu corpo a cada pensamento, aproxima-se perigosamente...


Segredas-me no silêncio de murmúrios, carícias de ecos perdidos na imensidão dos sonhos que ambicionaste para nós... O teu misterioso silêncio que me invadia e atormentava na expressão do teu singular olhar, na expectactiva do receio... Paralisas-me o raciocínio, serão as emoções que vi espelhadas, arroubos de imaginação?


Sim, deliro... Com o passado que não existiu, com o presente ambíguo e o futuro indefinível...


Afasto-me da falésia com o seu mar vivo e revolto que clama pelo meu nome, e recuo de volta à floresta. O oceano descontrolado é muitas vezes um tumulto sem retorno, enquanto que a fogueira aconchegante que crepita na clareira aguarda o meu regresso...


No entanto o mar continua a atrair-me hipnotizada, e admiro-o de longe.... Desejo mergulhar nas suas águas e ser como uma gaivota livre que paira no céu com as suas asas abertas, cobertas de sal....


Sim, porque há momentos em que ainda é possível recomeçar com um sorriso...


quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Labirinto

Secretas,
As tuas portas
Entreabertas
De pensamentos
Obscuros
E sedentos...
Ouso penetrar
No teu labirinto
Sem hesitar,
Sentindo o passado
Eclodir
Em pecado...
Na escuridão
O despertar
Da prisão
Grita sem temer
A essência
Do meu ser...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Promessas Vãs

Prometeste ficar ao meu lado
Com palavras quentes
E cheias de significado...
Mas o nevoeiro surgiu
Dissimulado, arrebatando
A tua vontade.

Prometeste proteger-me
Da dor da saudade
E do esquecimento...
Mas a neblina adensou-se
Ocultando-me
da tua percepção.

Prometeste enxugar
As minhas lágrimas
Nos teus lábios...
Mas a água brotou das nuvens
E deixaste de ter sede
Do meu sal.

Prometeste aquecer
A minha alma com o teu
Hálito de Fogo...
Mas o vento gélido
Congelou o teu coração
Deixando-te sem fôlego.

Prometeste numa
Noite encantada
Jamais esquecer-me...
Mas o orvalho fez desaparecer
As palavras que
Gravaste na areia.

Das tuas promessas
Restou apenas o meu sangue
Pintado nas pedras solitárias
Que se erguem contra
O firmamento.
Prometeste, mas...

sábado, 8 de novembro de 2008

The Whisperer...

Como homenagem à minha querida Irmã Misha )O(, hoje coloco aqui um poema da sua autoria. Deixa despontar novamente o teu lado criativo.... ;)




The silent warrior wakes in the night
The shadows fill his heart with strength
“Oh Darkness, my sweet lover! The end is near and I shall face it!”
The cruel spirit moves in deep obscurity,
The trees shake afraid of the cold they feel;

The moon has disappeared from the sky,
The stars fell when love died,
The clouds, afraid of freezing, vanished into air…
Oh! The spirit of the Wind!

The warior walks above the land
Pursuing anyone who has fear,
Fear of the Dark, fear of Death!
Death is Fear and Fear is Death,
And the pain is the Darkness in our minds;

The rain has fallen no more,
The tears have stopped their stream,
The lakes and seas are dry, dried with suffering…
Oh! The spirit of the Water!

Light runs from the warrior
For he is darker than Darkness itself.
He sees nothing, he feels nothing,
He feels nothing but thirst,
The thirst of a Dark Revenge;

The sun won’t come up tomorrow,
The fire won’t burn longer,
The shines of golden fields will no more be seen…
Oh! The spirit of the Fire!

The silent warrior stops
He feels something else,
Something he had never felt before
It’s a growing sensation that fills him,
And he feels afraid;

The trees shook with cold,
The stones broken in pieces,
The animals ran in fear…
Oh! The spirit of the Earth!

He sees a Light, a powerful Light,
It’s the purity of harmony he sees,
The shine of golden hair and pale skin damage his eyes
He’s blind for a second but he recovers
For She has touched him, and he died… Screaming Her name…

And the Moon filled the Sky,
And the Rain fell too,
For the Light has came back
And now the trees scream too…
“Oh! The spirit of the Dark!”


27, Outubro 2001

Por Misha )O( em Twilight Caress

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Ecos

O órgão ecoa pela Catedral... Ecos de fantasmas buscam a luz diáfana que penetra através dos vitrais descolorados pela passagem do tempo...

Esta noite, majestade e servidão encontram-se lado a lado, percorrendo as alas em lenta procissão. A musicalidade dos cânticos ressoa ainda em cada pedra, em cada imagem, em cada pintura.... Como que um chamamento, a energia parte da Ara e propaga-se como se de uma invocação se tratasse. As velas cintilam lugubremente, conferindo uma aura mística às lajes em ruínas, onde repousam os meus restos mortais.

Hinos de outrora ressuscitados para os heróis e poetas de amanhã numa busca incessante de vida, renovam-me com laivos de saudade, da queda no ressurgir da obscuridade.... Da minha queda, do meu mergulho no mar desconhecido e revolto, que me transporta através das teias do tempo, como num filme mudo a preto e branco, sem início nem fim.

Passa diante dos meus olhos a eterna caminhada que a divindade profana percorre de olhos vendados.... Invoco o presente, o passado e o futuro nesta noite ambígua em que mortais e imortais olham o infinito como se fosse a última vez…

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O Próximo Passo

O pó rodopia no ar, em remoinhos de sonho espiralado, ganhando e perdendo formas, incessantemente.... Transmuta-se o real e o imaginário, materializando-se perante os meus pés, e apenas por escassos segundos, o caminho a percorrer. Ao hesitar, esfuma-se a visão e surge o idílio dourado que permanece nos recessos das minhas recordações.....

Consegues ver?

O Templo esplendoroso que reluz nas sombras e nos atrai magicamente para a sua placidez, convida-nos à busca do momento certo para dar o próximo passo.

Sentes o bater das asas que te elevam, ultrapassando os abismos e obstáculos que ficam para trás? Sentes a cor e o aroma dos prados que sobrevoas?

No passado ficou o cinzento adormecido das cidades estáticas que se desfaz, sem vida, morto à nascença, sem alma, pois a futilidade iníqua sufocou a gene do conhecimento...

Dá-me a tua mão, façamos o caminho juntas, seguindo a luz que morreu e renascerá ao amanhecer, nesta vida, e em muitas outras que se seguirão. Seguindo a Luz, iluminaremos o mundo em redor, sendo a centelha divina que dá alento. Verde de esperança e Vermelho de vida.