terça-feira, 8 de julho de 2008

Reflexo



Vejo-me ao espelho, não reconheço quem sou... Não reconheço os olhos que me olham do outro lado... Onde está o brilho no meu olhar? Onde está o fogo que transbordava? A alegria que eu emanava? A alquimia que transmutava?

Vejo-me ao espelho, e deparo-me com tristeza, com uma inquieta certeza, com uma crónica melancolia... Vejo a resignação com que vivo dia após dia, e o meu coração exige e afasta a solidão! Tenta em vão encontrar o calor, mas depara-se apenas com a escuridão...

Vejo-me ao espelho, e vejo-me realmente como estou, sem véus, sem ilusões, sem mentiras.... Vejo-me nua e crua, com todos os meus defeitos e todas as minhas virtudes. Analiso-me à lupa do microscópio, e mesmo que me disseque e retire as várias camadas que fui criando para me esconder, continuo a conseguir ter um difuso vislumbre do brilho de outrora, que permanece adormecido. Não, não está perdido o resplendor de outrora, apenas jaz a meus pés, inconsciente, letárgico, à espera de um toque de magia que me ressuscite de novo para a vida.

Vejo-me ao espelho, semicerro os olhos e vagueio inconscientemente pela minha mente. Desta vez consigo vislumbrar uma centelha de brilho, que tremeluz debilmente e teima em não se apagar. Mantêm-se como uma brasa, à espera que o ar faça entrar em combustão, o fogo que jaz adormecido na braseira.

Vejo-me ao espelho, e sorrio... Fecho os olhos e sinto um toque leve, fresco, a acariciar-me a pele. Saboreio a paz que começa a aquecer o meu ser... Lentamente a minha visão percepciona uma outra luz débil ao meu lado, adormecida, pulsando a vida latente. Olho à minha volta, e constato que não estou sozinha na escuridão. Uma centelha ilumina a outra, e juntas caminham lado a lado na escuridão, em direcção à luz.

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